Três palavras mágicas: professor !
Parte II
Durante um ano eu estive ali, coloquei na parede uma folha com três palavras mágicas: por favor, muito obrigado e bom-dia. Minha impressora estava sem tinta, aproveitei o resto da tinta colorida e fiz o cartaz. Dentro desta sala de aula esqueci de meus problemas e comecei a estudar, li, fiz pesquisas e fui vivendo meu novo estado: professor.
Em 28 de julho de 2001 eu completava mais um ano de vida, talvez o pior, pois eu estava há um ano sem Cristina, a quem jamais esquecia e minha família mudara-se para o Interior de São Paulo, sendo assim, vocês podem imaginar. Naquele dia estávamos no Centro Cultural em São Paulo. Um dia frio e solitário, para mim. Eu cheguei cedo, acendi um cigarro e sentei no chão, os outros professores chegaram um a um com seus alunos, mas os meus, nem sinal.
De repente, surge um grupo de pessoas colhendo e trazendo flores nas mãos, imaginei ser um grupo pentecostal de evangélicos, mas não, eram os meus alunos trazendo alegria para um professor. Não segurei o choro e fui abraçado por todos. Nunca esqueço esta cena.
Fui promovido à coordenação pedagógica e não mais os vi, pois seu curso havia terminado. Hoje três anos depois muita coisa mudou. Trabalhei com a coordenação de vários programas do Estado e da Prefeitura. Segui a carreira lendo, pesquisando e principalmente sonhando.
Mas voltemos ao fato. Quando fui convidado pelo grupo da Prefeitura de São Paulo para palestrar aos professores e coordenar o programa, foi agendado um encontro prévio com esses professores. Quando cheguei ao local, fiquei surpreso - o mesmo local que este professor começou a sonhar. Entrei rapidamente e caminhei por cada espaço vazio das salas de aula até encontrar uma sala suja, vazia e escura. Abri a porta lentamente e fiquei parado relembrando cada aluno, cada sorriso, cada dia vivido naquele lugar. Olhei para a parede e ali estava molhado e envelhecido, mas ainda vivo, um cartaz dizendo: palavras mágicas.
Aquelas palavras que um dia foram mágicas para dezenas de alunos, naquele momento foram mágicas para mim, que puder reconhecer o bem que fiz ao escolher este caminho. Fechei a porta com reverência e despedi-me em silêncio. Lembrei dos dias que ali sozinho fica lembrando da minha Cristina, que aliás, casou-se há poucos dias. Fui interrompido por uma voz alegre e verdadeira que disse:
- Professor !!!
Era a Dona Dalva, advogada do sindicato que repartia sua comida comigo, pois eu entregava a minha marmitex, benefício que dispunha como professor para os filhos de alguns alunos que os acompanhavam no curso. Muitas vezes eu e a Dona Dalva ficávamos conversando sobre Cidadania e Educação. Fui abraçado com louvor. Saudades ela dizia, que Saudades.
Em seus olhos pude ver as palavras mágicas: sou professor. Aquelas palavras soaram tão fortes em mim, como se fosse tomando conta do meu corpo e assim assumindo forma, forma de professor.
Hoje, um domingo de inverno estou sentado escrevendo sobre a minha vida, o melhor que posso garantir é que não é uma autobiografia, ainda não. Mas um recorte daquilo que fiz sem saber e que hoje me despertam para um ofício: o da imortalidade. Jamais esqueço dos momentos que vivo com meus alunos e sei que em algum lugar estou ainda vivo em seus pensamentos.
Santo André, 17 de agosto de 2003.
Cartas de um professor apaixonado.
Escrito por Luiz Fernando às 11:20 PM
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