Olhos de Adão e Braços de Eva

 

 

Se defendermos que o olhar e o agir do homem não são neutros, ou seja, quando assumimos valores transformamos o meio no qual vivemos poderemos atribuir um novo olhar ao processo de formação do educador. Toda e qualquer teoria será confrontada entre o Social e o Escolar. Uma idéia contraposta entre concreto e abstrato, ou objetivo e subjetivo. A dimensão entre teoria e prática talvez aumente nossa discussão, uma vez que recuperando-se a dialética teoria e prática nos contextos pedagógicos, talvez seja possível entender as dimensões vividas pelo professor, se pensarmos que somos compreendidos pelos olhares da Filosofia, Sociologia, Psicologia ou Antropologia. A partir desta concepção assumimos o papel de mediador, o que muitas vezes nos faz apresentar um juízo de "autoridade", ou aquele que pratica em seu discurso o conhecimento da "verdade".

Se pensarmos em um professor reflexivo, aquele que conhece a dimensão de seu trabalho e procura estender essa prática como discurso ideológico na prática social observaremos, talvez “os devaneios de um caminhante solitário”, como apresentou-nos Rousseau, porque é necessário compreender o contexto social, a consciência política e a identidade para estabelecer um conceito deste professor. Certamente não pretendo em meu discurso contradizer a imagem ou necessidade de um professor reflexivo, mas sim buscar a imagem deste professor na imensidão do homem que vejo e com o qual aprendo diariamente em sala de aula. Muitas vezes o professor tem o interesse pela pesquisa, deseja contribuir com os conhecimentos que possui, acredita no aluno, e sorri ao entrar na escola. No entanto sua frustração chega a ser mortal quando recebe um salário concreto e observa os gastos presentes em uma pesquisa.

Certa vez meus alunos leram  “O feijão e o Sonho” de Origines Lessa. A história de um professor que em sua pequena casa institui uma escola particular. Juca é poeta e foi capaz de comprar um dos livros mais belos e caros do Movimento Simbolista, coisa em torno de quinhentos réis, o que para Juca seria impossível. Sua mulher detesta a profissão do Marido e simplesmente encerra o Sonho de Juca que era fazer de seus alunos verdadeiros poetas. Em um dos capítulos ela diz que além de ser negra é mulher de professor. Ainda nesta frase Maria Rosa ralha com as crianças dizendo que aprender poesias não leva ninguém a lugar nenhum, o que deve-se aprender é plantar café, colher frutas, carpir e saber quando é tempo de semeadura.

Os olhos de Juca são olhos de Adão, muitas vezes sem compreender o todo busca na simplicidade a reflexão do trabalho de um professor. Mas quem sabe muitas vezes os braços de Eva nos levam a perceber a individualidade a racionalidade, e então a prática e reflexão deixam de ser um sonho e passam a ser um pequeno feijão seco.

           O importante não é dimensionar as características de um professor reflexivo, e sim talvez analisar o contexto social que vive esta reflexão. Não defendo um discurso anti-pedagógico, mas questiono um social irradicado em nossa História. O profissional reflexivo, envolvido e apaixonado também é um sujeito que tem sonhos, desejos e limites.

 

Referência Bibliográfica:

SILVA, Marilda da. Como se ensina e como se aprende a ser Professor. Bauru: Edusc, 2003.

Escrito por Luiz Fernando às 2:32 PM
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 Da Imagem e Semelhança à Perfeição

 Quando iniciamos um debate sobre a formação de professores e sua prática temos em vista uma visão diacrônica que estabelece um paradigma: de um lado a postura correta e do outro a perfeição.

Não é difícil imaginar o pensamento de milhares de professores que atuam nas esferas públicas e privadas, seu discurso agride toda e qualquer reflexão sobre o assunto.

Quando estamos em um curso de licenciatura procuramos um resultado mediatista, ou seja, concluirmos o curso, sem ao menos percebermos o que será feito de tais conceitos assimilados em sala.

Pode parecer um pouco obvio iniciarmos o tema “professor reflexivo” por este pensamento, mas o que me despertou foi o seguinte trecho de Carvalho,1990: “O trabalho é uma ação humana intencional que busca continuamente transformar a natureza  a fim de ajusta-la às necessidades do homem”.

Observe que para Carvalho e todo o pensamento iluminista, o trabalho é uma ação intencional, o que nos parece algo racional, muitas vezes não o é. Portanto a formação docente atinge a proposta de preparar um profissional reflexivo. Ou melhor, quantos jovens e estudantes ingressam no magistério sem ao menos saber "O que é Educação" ? Certamente diríamos que a prática fortalece o educador diante da perspectiva social. Não podemos é claro culpar as Instituições, nem tão pouco o aluno, uma vez que o espaço de atuação está longe de ser conquistado.

Certo dia eu estava conversando com a Coordenadora Pedagógica de minha escola quando sua secretária entregou-lhe um material a ser copiado como atividade para os alunos da 4a série . Ela suspendeu os olhos e disse decepcionada:

- Meu Deus, quanto tempo isso existe?

Seria esse o caminho para questionarmos o tema “Professor reflexivo”. A professora talvez não leu a frase de Carvalho? Talvez não reconhecesse a necessidade de ajustar sua prática ao grupo de alunos atual? Ou apenas está aplicando uma atividade, o que não afirma nem contradiz sua consciência como educadora?

No entanto, vivemos em um contexto muitas vezes opressor, pois entre matérias específicas e palestras de grandes nomes do cenário Educacional – o professor é investigado, analisado e apresentado entre dois eixos: A imagem e semelhança de teorias e ideólogos -  A perfeição de sua prática.

Não afirmo ser um equívoco determinadas teorias, bem como estudos autobiográficos. Mas, podemos considerar o contexto político-social como um curinga nesta discussão. O que diremos pois, de Freud.

Hoje, o profissional da área de educação, muitas vezes sente-se oprimido, insatisfeito e ameaçado diante um “Tratado Pedagógico”.

Marx, apropriando-se da expressão grega práxis, concebe o trabalho como atividade especificamente humana, através do qual o homem cria, criando e transformando o mundo. O que pois, nossos professores estariam criando? E estariam eles transformando o pensamento individual e seu próprio mundo?

Qua teoria, qual pesquisa evidenciariam um sucesso em sua atividade? Mas, para mim o que torna cada vez mais desestimulador em seu papel é a dicotomia entre a perfeição e a comparação com os colegas, o que é inevitável. No entanto somos seres infinitamente únicos nestas metafóricas entrelinhas.

 

 Referência Bibliográfica:

ALVES, Nilda (org.). Formação de Professores: pensar e fazer. 7a. ed. São Paulo: Cortez, 2002



Escrito por Luiz Fernando às 1:40 PM
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